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O dia em que eu matei meus pais

Chovia. O sol havia se escondido detrás de uma espessa camada de nuvens negras, que cobria todo o cinzento amanhecer. O mundo parecia estar sendo engolido pelo mais soturno espectro, causando-me um terror sinuoso, sepulcral; mas foi neste momento de terrível embolia que eu finalmente tomei minha decisão.

Eu já não mais os aguentava. Já não os podia suportar. Um minuto a mais naquela casa era como queimar no inferno, e sem direito a purgatório. Apenas quando eu saía, e eram raríssimos esses momentos, conseguia experimentar um pouco mais do que viria ser a verdadeira liberdade. Sim, liberdade: o maior anseio de minha vida e que, de um jeito ou de outro, sentia-me no direito de usufruir plenamente. 

Mas o que é a liberdade? Para mim, a jovem garota que era consumida por um hedonismo virulento, era nada mais o que fazer o que se deseja, quando se deseja, como se deseja; era viver a vida no ápice de suas barganhas, da maneira mais agradável que eu pudesse encontrar para mim mesma. 

Mas meus pais não deixavam. Nunca. “Não faça isto”, ou “faça isto”, “viva assim”, “aja deste modo”, “está proibida disto”, “não é lícito fazer aquilo…” Sentia-me terrivelmente opressa dentro de minha própria casa. Já não a reconhecia como um lar. Precisava sair. Mas como?  

Quando entrei em casa, encontrei os dois dormindo. Eu não era nada além de um arremedo, de um frangalho, com as roupas gastas e cheirando a bebida. Minha mente estava tão obscura quanto os cantos daquela casa. Havia pernoitado fora como rebeldia, e esperava os castigos terríveis que eles me empregariam quando chegasse em casa. Mas quando pensei bem, nada disso iria acontecer. Alívio. Era o fim da minha prisão.

Fui até a cozinha e procurei por qualquer coisa. Mal conseguia caminhar. Mas uma força sobrenatural me encheu os músculos e eu consegui esticar o braço até encontrar o amassador de carne. 

Aproximei-me, soturna e fria, da cama dos meus pais. Minha mãe dormia triste, com o rosto ossudo e sulcado por uma angústia anterior, como se estivesse dormindo sem querer; sabia que era eu a causa de sua preocupação. Meu pai ressonava um pouco mais tranquilo, mas também não estava completamente em paz de espírito. 

Ao vê-los assim, como costumava ver tantas vezes em minha primeira infância – quando acordava à noite tendo pesadelos e eles me acolhiam entre os lençóis da cama de casal – senti meu coração tremer. Um quê de razão voltou-me às faces, e eu enrubesci completamente. Lembrei-me não de minhas propensões egoísticas, de meus desejos não contemplados por culpa deles, mas a única coisa que puxei pela memória foram os momentos de paz. Eu devia estar errada. Absolutamente, eu estava errada. Eu era um monstro. Um monstro horrível. 

Senti os olhos de minha mãe abriram-se lentamente antes que eu a golpeasse na cabeça com uma força diabólica. Um punhado de sangue escapou-lhe das têmporas, esguichando na parede como uma pasta gelatinosa. Ela caiu da cama, inerte. Estava morta. 

Meu pai sentiu o baque e despertou, agitado e austero, logo em seguida. Estava em defesa, mas tinhas as vistas turvas. Aproveitei e lhe bati na testa. Ela vacilou, confuso, mas não caiu. Depois lhe dei três pancadas na nunca, e desta vez o sangue empoçou-lhe no corpo e escorreu até o chão. Caíra, prostrado. Dei-lhe mais um golpe como garantia. Como um animal qualquer que se abate, meu pai morria. 

Não posso descrever o terrível horror que acometeu imediatamente, logo quando percebi a desgraça que havia causado. Ali estavam dois cadáveres, os corpos dos meus pais, diante de mim, estilhaçados como qualquer porcaria, mortos a troco de nada. Toda a minha confusão mental dissipou-se. Não estava mais bêbada. Tinha consciência plena de minhas ações. Desesperada, comecei a chorar e vasculhei a casa em busca de qualquer coisa que pudesse acabar com minha própria vida. Vi apenas uma faca de serra suja de manteiga dentro da pia, úmida de vapor debaixo da torneira gotejando.

Segurei-a firmemente. Apontei-a contra os pulsos, enquanto meu rosto era embebido por lágrimas; mas de repente, senti um solavanco. Era o carro onde eu dormia, e que me levava de volta para casa depois daquela festa. 

Acordei suada, o coração a mil, o corpo contorcendo-se de um frenesi horrível; tudo não passava de um sonho mau. Eu ainda chegaria em casa. Ainda veria meus pais a dormir. E ainda teria, mais uma vez, a chance de matá-los. 

Mas agora, essa ideia me parecia horrível. 

Quando os vi ali, tão plácidos naquele doce ressonar, meu coração se enterneceu. Já não mais os odiava; não odiava ninguém, além de mim mesma. Contudo, tinha diante de mim a chance de mudar de direção. 

Nunca achei que fosse realmente capaz de matar meus pais. Pelo menos, não literalmente. Mas eu os estava matando, torturando, arrancando-lhes pedaço após pedaço todos os dias com minha rebeldia incontrolável. E hoje, escrevo a você: 

Liberdade não é fazer o que se quer. 

Regras não são um fardo. 

Obedecer não é ser oprimido. 

Não vale a pena abrir mão da liberdade para consegui-la. 

A rebeldia deixa rastros muitas vezes impossíveis de limpar. 

Tenha cuidado. 

Não se rebele. 

Não se liberte. 

Não se iluda. 

Não se desvie. 

Não mate os seus pais. 









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